Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas
15 os outros dos últimos anos em que acorda- ria no dia posterior sentindo um vazio no peito? “A primeira coisa que vinha a mente, todos os dias nos últimos quatro anos era eu me questionando sobre quando seria. É uma espera muito grande, mas o dia havia finalmente chegado”, completa. Afastou toda essa insegurança e já na sexta-feira ele e a esposa oficializaram os trâmites no juizado. Estava acontecendo. No sábado foram ao centro de Cuiabá comprar todo o enxoval, de itens básicos como rou- pas e fraldas a móveis, tudo ansiosamente escolhido para acomodar a menina. Julga- ram que seria melhor esperar para comprar tudo e, só então, conhecendo a filha, seu tamanho, seu rostinho e seu sorriso, esta- riam aptos a pensar de fato nas novas ne- cessidades da família. Mesmo sem ter tudo minimamente pla- nejado, Claiton sabe que jamais estariam preparados para os desafios que só a prática dos dias lhes ensinaria. Uma criança trans- Isadora. Claiton se lembra com exatidão do cenário, dos dias e dos acontecimentos que se seguiram ao instante em que teve certeza de que aquela menina que segurava no colo há poucos minutos, sua filha, estaria com ele para sempre. Um momento tão marcan- te e transgressor que ainda agora, quando relata, luta para conter as lágrimas. “Assim que terminou a Copa do Mundo, me ligaram e informaram que havia che- gado nossa vez e tinha uma menina apta à adoção. Foi emoção a toda prova. Eu e minha esposa corremos para encontrá-la. Aquele dia mesmo ela estava fazendo nove meses. Ela era tão pequenininha, uma coi- sinha indefesa. Olhar para ela ali fez passar um filme na cabeça. Pensamos muita coisa, nas maldades que as pessoas conseguem praticar contra elas. Como que pode, né, moço?”, indaga o pai que hoje diz sentir na própria pele qualquer sofrimento vivenciado por outras crianças. O servidor, que é assistente no gabinete do conselheiro substituto Isaias Lopes da Cunha, também se recorda que, neste dia, não tinha mais que o próprio coração e um quarto cor-de-rosa preparado há um tempo para receber a menina. Isadora teria autori- zação judicial para ir para casa já na próxima segunda-feira. Depois de tanta burocracia e demora no processo percebeu seus dias se transformando velozmente. Só para terem direito a entrar na fila foram dois anos e, ao entrarem na 60º posição, ficaram por quatro anos. Uma fila que anda, para crianças com a idade de Isadora, uma única vez ao mês. Não seria apenas mais um sonho, como A primeira coisa que vinha a mente, todos os dias nos últimos quatro anos era eu me questionando sobre quando seria. É uma espera muito grande, mas o dia havia finalmente chegado
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