Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas
25 Mas este mesmo chão selvagem, cuja adversidade se doma ou se permite de- vorar, também foi o cenário por onde o jovem Francisco deixou suas primeiras pegadas no mundo rumo aos seus páreos da vida – a esquina entre as ruas 15 de novembro e 7 setembro. Nesse encontro de veios urbanos, num campinho improvi- sado à sombra da igreja de Nossa Senho- ra da Conceição, os meninos de ambos os endereços em Araripina, Pernambuco, rivalizavam, com a bola nos pés, uma dis- puta digna dos maiores episódios republi- canos do Brasil. Francisco Delmondes Bentinho, filho da enfermeira Antônia Consuelo Delmondes Bentinho e do finado barbeiro, José Ben- tinho Sobrinho, aprendeu nas arestas de Araripina, entre ruas tortuosas de paralele- pípedo e dentro da casa estreita e estalando de gente, a se posicionar diante do mundo. Além dos pais, dividia a casa módica com seus numerosos irmãos – ao todo 17. Ou- tros 10 estão país afora escrevendo seus atinos. A mãe, aos 96 anos, ainda reside na casa, agora mais cheia de lembranças que de gente. Nesse contexto, e por conta da literatura e dos romances clássicos russos, franceses e brasileiros, com os quais teve contato desde jovem, Francisco foi percebendo a comple- xidade de sua existência. Tomou consciên- cia sobre a necessidade de cumprir seus caminhos e atravessar fronteiras. Viajou nas narrativas mágicas de realidades inimaginá- veis e acreditou nos sonhos que pululavam em sua mente. Segundo ele, quando deixou o sertão, cumpriu a sina que acompanha todo nordestino, carregando consigo um espírito de busca e de procura; um espírito aventureiro. Aos 22 anos embarcou num ônibus e se mudou para o Rio de Janeiro. Foi mo- rar com a irmã mais velha. Após o primeiro ano, mudou-se novamente, mas, desta vez, para São Paulo. Trabalhou como servente de pedreiro, por cinco anos, na construção da Estação de Abastecimento Ceasa. Desse período, ainda carrega consigo, no bolso, a carteira profissional da qual se orgulha por demais. Foi um momento difícil ter que voltar para a casa depois de mais de cinco anos, quando as coisas começaram a desandar na metrópole. De certa forma, significava também voltar aos trabalhos esporádicos, escassos que surgiam aqui e ali. Mas foi as- sim, por outros longos oito anos, oscilando pelas arestas da Araripina que, hoje, se ex- pandiu e constitui um dos principais polos de produção de gesso no país. Francisco foi percebendo a complexidade de sua existência. Tomou consciência sobre a necessidade de cumprir seus caminhos e atravessar fronteiras
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