Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas
32 quele período não tinha muito movimento, fazia tudo muito rápido”, comenta João. Ele se lembra, também, da alegria e al- gazarra feita pelos filhos de alguns servi- dores que eram transportados até o Edu- candário Gasparzinho. A criançada pulava de banco em banco e, ele brinca, foram responsáveis por alguns de seus fios bran- cos. “Hoje, já tá tudo moço, grande. Vez ou outra aparece alguém aqui no Tribunal. Aí penso que tô velho... Mas tá bom. Passa rá- pido”, reflete. Com 21 anos de casa, Seu João está há seis, na Secretaria de Administração. Para ele, olhar para trás é perceber que trilhou um caminho muito feliz dentro da institui- ção. Quando perguntado sobre os próxi- mos passos, evidencia que já flerta com a aposentadoria, que deve chegar nos anos seguintes. “Hoje meu sonho é conseguir me aposentar. Vai chegando a idade e você sabe que o corpo sente. Daqui uns três anos eu aposento”, comenta. Seu João vai se dedicar à pescaria por- que não tem coisa melhor que pescar. Ima- gina que terá tempo de sobra para praticar o lazer à beira do Rio Garça. “Lá é muito bom, nem quem não pega fica de boa, tranquilo” e, de repente, transporta-se para o meio do mato, com o riso de quem lembra que tem um lugar favorito no mundo. Além do hobbie, Seu João quer conhe- cer a Bahia, a terra natal de seus pais e dos irmãos mais velhos. Tem muito apego às suas raízes e gostaria de conhecer mais so- bre as ascendências, mesmo que isso hoje seja improvável. Os pais e tios que vieram de lá já faleceram, deixando apenas rastros das histórias contadas. Mesmo assim, talvez, estar lá seja o suficiente para ele se reconec- tar com as memórias herdadas e que ainda se manifestam no seu sotaque, que se con- funde com o cuiabano. Após anos guiando sua vida cortando o Centro-Oeste, Seu João vislumbra que, quando chegar a aposentadoria, talvez seja a hora de estacionar sua rotina, nova- mente, no interior de Mato Grosso do Sul. Quem sabe na cidade de Pedro Gomes, onde os pais viveram seus últimos dias. Lá todos se conhecem e o carro pode ficar na rua com os vidros abertos. Ninguém mexe. A convicção de que precisa fazer isso veio no final de 2016, após assalto à mão arma- da que sofreu em casa, no dia 22 de no- vembro de 2016. A cidade grande é uma selva, está pe- rigosa demais, “olha lá o Cadeia Neles pra você ver”. E João quer viver mais de 80 anos, com a saúde mantida pela caminha- da, pelo jogo de futebol aos finais de sema- na, e pela dança. Gosta de sertanejo e forró. “Filho de nordestino... Aí já viu tem aquele sangue pro forró. Música boa é aquela mú- sica natural, como diz o outro. Gosto assim”. Talvez, lá no interior, após o peso dos anos, os sonhos que batem em seu peito possam se aquietar. Lá no interior, de volta para a casa dos pais, João, o menino e o homem, poderão se reencontrar. Publicada na Intranet em 17/2/2017
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