Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas
34 Aos sete anos pintou a primeira tela. Lem- bra-se como se fosse hoje quando, da janela do Palácio da Instrução, traçou os esboços da palmeira imperial que se esgueirava pela paisagem. Queria rascunhar um animal do- méstico, mas o professor a orientou a obser- var o cenário através da grande ventana que dá para a Praça da República. Contrariada, já sonhava com os trabalhos artísticos que re- alizaria livremente ao longo da vida. Daquele primeiro contato com a tinta começou a colorir uma série de outras su- perfícies como madeira, vidro e porcelana. Também aprendeu outras técnicas de cos- tura como o bordado e o tricô. Recorta, apli- ca, encaixa, molda e cola. Se interessa por um produto, faz cursos, pesquisa na inter- net, estuda e reproduz. O processo algumas vezes é lento e metódico. Depois que conclui o expediente, cum- pre o papel de mãe do Felipe, de dona de casa, de irmã e de tia, e sempre a partir das 20h, debruça-se sobre um novo intento. Cada produção tem seu tempo. Às vezes levam horas, outras vezes dias, meses. Por isso, serve-lhe como meditação a oportu- nidade de se encontrar consigo e silenciar as inúmeras ideias que lhe passam a todo instante pela mente. Aos 52 anos, a servidora comenta que nunca vendeu uma peça sequer de sua vasta produção manual. Faz por amor e passatem- po. Enfeita a casa, o ambiente de trabalho ou entrega de presente a alguém. “Quan- do eu vejo a obra pronta, para mim é uma satisfação muito grande. E essa sensação é ainda maior se você faz pensando no outro. Há uma troca de energia muito grande, tan- to para quem recebe quanto para quem dá. Cada peça tem um valor sentimental maior do que se comprado pronto. Você produziu e pensou naquela pessoa desde a concep- ção da ideia até sua execução”, explica. Poucos conseguem fazer esta leitura am- pla do processo de fabricação de um pro- duto artesanal. Sem reconhecimento não há valorização desta expressão artística que, de diversas formas e formatos, rompe a mono- “Quando eu vejo a obra pronta, para mim é uma satisfação muito grande. E essa sensação é ainda maior se você faz pensando no outro” Prato de porcelana pintado por Kátia, a artesã Acervo pessoal
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