Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas
51 grave acidente de carro em junho de 2009, Flavia se viu envolta nesta profusão de di- lemas que a transformaram por completo. Seu corpo e sua mente foram igualmente dilacerados, mas com tempos diferentes de recuperação: lentos, arrastados por expecta- tivas continuamente frustradas. Enquanto as dores das vértebras e costelas quebradas, da lesão no pulmão e das posteriores infecções eram exaustivamente remediadas, as frag- mentações psíquica e emocional só ense- jaram o restabelecimento um longo período depois, quando ela aprendeu a ressignificar o seu próprio mundo, conhecer suas fron- teiras e limitações para, então, como uma estrangeira de si mesma, coabitar-se. Este processo, confessa, ainda não se concluiu. A filha Maitê, com três anos à época do acidente, foi a principal razão para que con- seguisse transitar por este novo mundo e suportar os longos meses que se sucederam em clínicas de reabilitação fora do Estado. “Minha filha foi minha força. Num momento divino, quando eu vi que já estava desistin- do de lutar, ela pediu pra eu suportar, por- que ela precisava de mim. Ela usou as pala- vras “mãe, você não pode me deixar porque eu preciso de você” e foi aí que eu repensei toda a minha condição. Percebi que seria uma fraqueza muito grande eu ter gerado uma vida e depois deixá-la”, analisa. Além da filha, de suas duas irmãs e de seus amigos, Flavia, que hoje está com 36 anos, contou com o apoio dos pais, que, dia após dia, procuraram meios para aprender a lidar com as suas necessidades, seus confli- tos e sua não-aceitação. “Minha mãe, Már- cia, foi uma rocha durante todo esse pro- cesso. Faltam palavras para descrever o que ela representou e representa na minha vida. Costumo dizer que ela cuidou de mim e das minhas irmãs e de mim novamente, porque eu dependia dela pra tudo. Já meu pai, Es- per, ah, ele é o coração, o sentimento... Ele chora até hoje, sente saudades relembrando daquela Flavia”, comenta. Para ela, poucos elementos, além da per- sonalidade cativante, do sorriso fácil e da essência durona, restaram da mulher de an- tes, que não existe mais. Por isso, são sem- pre sofríveis os momentos em que precisa revisitar o baú com as inúmeras lembranças de si mesma; memórias que lhe despertam uma nostalgia amarga, saudosista do dina- mismo da vida que lhe foi furtada e de toda a liberdade que seu corpo experimentava em poder ir, vir e sentir. “Sinto falta das coi- sas mais banais como tomar banho em pé. Sinto falta de pegar o carro sem dar satis- fações, levar minha filha comigo e ir a uma cachoeira em Chapada dos Guimarães, sen- tir a correnteza da água”, reflete. Após sete anos, a servidora explica que só hoje consegue perceber sua condição de forma mais leve. Reconciliou-se com Mãe, você não pode me deixar porque eu preciso de você
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