Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas

Além do Olhar: relatos e trajetórias dos servidores e colaboradores do Tribunal de Contas

91 minha filha, bem pequena, veio com um de meus saltos e falou ‘olha mamãe, quan- do crescer vou ser igual a senhora’. Aquilo me deu um estalo. Porque eu disse ‘não, minha filha, você vai ser melhor que a ma- mãe’. Porque eu sou de uma época, que as mulheres não conheciam o seu corpo, não se tocavam. Tudo isso era pecado. Então vi naquele momento de conversa com outras mulheres a oportunidade de começar um mundo diferente para nós e nossas filhas. Nossos corpos também existem”. Respeito às diferentes religiões, aceita- ção à liberdade do corpo feminino, aco- lhimento às pessoas em situação de rua e apoio à comunidade LGBT. Glaucia já per- deu as contas de quantas vezes discutiu com pessoas próximas sobre o que, para ela, é natural: o amor entre os seres humanos. “Eu tomo as dores. Quando vejo alguém com comentários violentos próximo a mim começo a questionar ‘nos seus sonhos você tem sonho com homem ou com mulher?’ e vou encurralando a pessoa porque, para mim, essa insistência em se preocupar com o amor alheio revela uma questão de quem tem algo a esconder. Por que tanta raiva? Não entendo. A pessoa tem que agir de acordo com o que faz bem”. Para ela, quanto maior é a aceitação ao próximo e o acolhimento, mais aceitação e acolhimento se tem consigo mesmo, às complexidades, medos e ansiedades que todos nós, em alguma medida, carregamos dentro de si. Por isso, talvez, o grande di- ferencial de suas experiências seja aplicar em todos os ambientes pelos quais transita um pouco de suas múltiplas vivências no lar cheio de amor e pluralidades de sua in- fância. Glaucia conseguiu enxergar a inteira humanidade em homens e mulheres que já não podem comprar roupas ou máscaras para esconder como estão quebrados, por dentro e por fora. E a gratidão vem menos pelo alimento, que pela sensação de se per- ceberem vistos num cotidiano que os omite com indiferença e crueldade. Um homem em situação de rua, certa vez, dirigiu-a a palavra: “Dona, o que é isso que sai do olho da senhora? É tanta luz que sai de dentro daí e vai direto para o meu coração”. Ali, naquele momento, ele teve a oportuni- dade única de se ver humano outra vez nos olhos de Glaucia. A filha de Iansã chorou. Publicada na Intranet em 21/7/2017 Para ela, quanto maior é a aceitação ao próximo e o acolhimento, mais aceitação e acolhimento se tem consigo mesmo, às complexidades, medos e ansiedades que todos nós, em alguma medida, carregamos dentro de si

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