Cinquenta + 10 Anos de História do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso

Cinquenta + 10 Anos de História do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso

313 Cinqüenta Anos de História Se desta eminência de sua vida pública, lançar Rosário Congro um olhar para a estrada percor- rida, somente motivos terá para ufanar-se de sua gloriosa caminhada. Vindo das plagas de Pirati- ninga, no segundo lustro do século, fez de Mato Grosso o cenário de suas atividades. Advogado provisionado deixou, pelo Pretório o sinete de sua capacidade e de seu talento numa demonstração indiscutível de quanto pode e inteligência servida por uma grande força de vontade. Ingressando na política, perlustrou os mais destacados postos da administração estadual. Foi Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Corumbá, Intendente do Município de Cam- po Grande, Prefeito de Três Lagoas, Deputado Estadual em várias Legislaturas, Secretário de Estado, Presidente da Assembléia Legislativa, e, finalmente, Ministro do Tribunal de Contas do Estado, do qual é Vice-presidente. A todos eles imprimiu a marca inconfundível da sua personali- dade de escol, patenteando uma lídima vocação de homem público, devotado aos interesses da administração e ao progresso da terra que elegeu como sua. Na administração dos Municí- pios de Campo Grande e Três Lagoas, revelou Rosário Congro sua capacidade administrativa, a cada passo. Na Assembléia Legislativa, seja nas legislaturas anteriores, seja nesta que ainda perdura, pontificou, no Tribunal como o homem ponderado e sensato que sempre colocava os debates em nível elevado, à altura de sua bem formada cultura política. Como Presidente da Casa, deixou, na duração dos trabalhos do Parlamento Estadual, os traços marcantes de atuação de um autêntico magistrado. Como todos os homens se dedicam à vida pública, Rosário Congro há de ter sito vítima, vez por outra, da injustiça dos julgamentos temerários. Mas S. Exa. há de tê-los recebido com a com- preensão de Madame Roosevelt quando declara – “Um homem que exerce função pública deve aprender a aceitar a calúnia como coisa inerente ao cargo e confiar em que a maioria do povo o julgará pela obra que realizar”. À sua brilhante vida pública, alia Rosário Congro uma imensa e não menos brilhante vida intelectual. Orador vibrante, seus discursos são obras de fino lavor literário, onde a beleza da forma realça a justeza dos conceitos e o colorido das imagens. Poeta inspirado, seus versos maviosos são uma fonte perene de vivas emoções. Ora ele é o poeta da saudade, romântico à Casimiro de Abreu como quando visita a “Rua da Memória”: “Onde os muros de taipa... de gaiola em punho lépido galgava”, e onde “O longo bambual... a sombra. Sobre os passantes entornava amena”. Ora é o paisagista vigoroso, à Alfredo de Taunay, que canta “O verão de minha terra” quando “ O céu combusto é uma fornalha, e o sol, uma rubente esfera”, quando “So- bre a fumaça que escurece o espaço, Ao crepitar distante das queimadas, Os pássaros cochilamnas ramadas”. A Academia Mato-grossense de Letras, num preito da mais absoluta justiça, confiou-lhe uma das suas poltronas. E ele a tem dignificado. Ainda recentemente legou-nos este maravilhoso repositório de seus delicados sentimentos que são as “Sombras no Ocaso”. Sai, V. Exa, Sr. Ministro Rosário Congro, da vida pública cercado pelo respeito dos homens dignos de nossa terra, que se curvam ante a figura vene- rada de V. Exa numa prova de sincera admiração e reconhecimento. Estamos certos, entretanto, que a lacuna que ora abre V. Exa neste Egrégio Tribunal, em virtude de um mandamento cons- titucional, não significa o encerramento de suas atividades em prol da nossa terra. Ela continuará por certo, em outros setores, até o dia em que, por uma contingência biológica a que todos es- tamos sujeitos, V. Exa descer, pela última vez, a “Avenida da Saudade”, de que nos fala em seus sentidos versos. Senhores Ministros: Nenhum outro elogio mais honroso poderemos fazer a Rosário Congro, senão o afirmarmos que tendo ele exercido, por dilatados anos, tão proeminen- tes postos administrativos, sai da cena pública pobre como entrou. Pobre de recursos materiais, porém senhor de um imenso patrimônio moral que lega aos seus dignos descendentes, e de um inestimável patrimônio intelectual que lega à cultura de Mato Grosso. Tenho dito. 73 73 Discurso pronunciado na sessão de 21 de setembro de 1954 do TCE-MT, pelo Ministro Lenine de Campos Póvoas. Transcr. Profª. Neila Maria Souza Barreto. Revista da Academia Mato-grossense de Letras , Cuiabá, t.XLIX-LII, p. 93-96, 1957-1958.

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