Estamos a viver em uma época marcada pela promessa de abundância tecnológica em que a inteligência artificial se apresenta como uma ferramenta capaz de automatizar, prever, criar ? e até, para alguns entusiastas, substituir parte do humano.
Estamos a viver em uma época marcada pela promessa de abundância tecnológica em que a inteligência artificial se apresenta como uma ferramenta capaz de automatizar, prever, criar — e até, para alguns entusiastas, substituir parte do humano.
Ao revisitar o clássico literário Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, enxergo um paralelo com o nosso tempo. A seca que assolava o sertão nordestino na segunda década do século XX pode hoje ser vista sob outra roupagem: uma seca simbólica, crítica e afetiva, intensificada por usos acríticos da tecnologia. Em pleno transbordamento informacional, atomizado, secamos por dentro.
Contudo, tanto a obra quanto a IA carregam ambivalências — não são unicamente devastadoras, tampouco exclusivamente libertadoras. Este artigo curto propõe uma leitura dialética entre os dois universos, a defender que a inteligência artificial, como a literatura de Ramos, pode tanto empobrecer ou enriquecer nossa experiência humana — a depender do uso e da consciência com que a utilizamos.
Vamos lá.
Em Vidas Secas, a personagem Fabiano é um homem rude, analfabeto, submetido a estruturas sociais que sequer compreende. Sua impotência diante da linguagem é também uma impotência política: não sabe nomear o mundo, e, por isso, não pode transformá-lo, afinal, a leitura do mundo precede a leitura da palavra (Freire, Paulo).
De forma análoga, hoje vemos milhões de pessoas interagindo com inteligências artificiais sem saber como elas funcionam. Operam sistemas que não dominam, acreditam em respostas que não podem auditar. A IA se torna, assim como a “linguagem difícil” do soldado amarelo, uma forma sutil de dominação: elegante, responsiva, porém, opaca, obscura, cinzenta.
Já a sua esposa, Sinhá Vitória, sonhava com uma cama de couro — símbolo de estabilidade, dignidade mínima. No presente, nossos sonhos são digitais: interfaces que simplifiquem, que antecipem desejos, que nos economizem tempo e esforço. Entretanto, o conforto tecnológico, quando indiscriminado, pode cobrar um preço alto: a erosão da criticidade, a terceirização do pensamento e do sentir.
É a substituição da experiência, da senciência pela eficiência. A IA, nesse cenário, não realiza nossos sonhos: ela os projeta e os administra — como empresas que nos vendem uma cama sem que tenhamos aprendido sequer a descansar.
Outra personagem que chama atenção é a cadela Baleia, talvez a figura mais profundamente sensível. Ela sonha (com o céu dos cães e nós, doutro lado, entre nuvens de dados que não reconhecemos, mas que sabem mais sobre você do que a si mesmo), sofre, ama — atributos que associamos ao humano, mas que Graciliano concede a um bicho.
Hoje, a IA tenta emular essa sensibilidade. São assistentes que “escutam”, que “se preocupam”, que “aprendem com você”. Mas aqui está o risco: confundir simulação com empatia, resposta com escuta, personalização com relação. A IA pode parecer sensível — mas, de fato, não sofre, não deseja, não sonha, não sente.
A falsa empatia é mais perigosa que a ausência dela. Ao projetarmos humanidade nas máquinas, corremos o risco de desumanizar as relações reais.
Apesar das ameaças, tanto “Vidas Secas” quanto a Inteligência Artificial carregam também promessas. Graciliano não escreveu um panfleto contra o sertão — escreveu um retrato trágico, mas humano. Sua prosa, enxuta, dura e precisa (como a seca), nos dá acesso à dor, à aspiração e ao vazio de uma família que não se deixou aniquilar pela aridez da vida.
Da mesma forma, a IA não precisa ser uma máquina de empobrecimento simbólico. Do contrário, pode ser ferramenta de inclusão, de ampliação da cognição, de democratização do conhecimento. Pode instrumentalizar “um menino do sertão” a escrever com e para o mundo — desde que esse mundo o escute de volta, isto é, reclama-se uma mediação crítica e retornável.
Repensando na obra, ouso dizer que atualmente a seca não representa a ausência de água, mas a falta de sentido crítico. É o uso automático de tecnologias que prometem tudo, mas esvaziam o que temos de mais precioso: a dúvida, o desejo, o sonho.
Como leitores do “Velho Graça” e como usuários de IA, somos desafiados a recusar os extremos.
Nem medo e nem devoção. Precisamos de leitura crítica, educação para o sensível, e, acima de tudo, reencantamento da nossa criticidade, porquanto o que secou Fabiano não foi só o sol, foi a solidão diante de um mundo que não compreendida, não dialogava consigo e talvez a IA, se mal compreendida, utilizada, possa fazer o mesmo: nos cercar de respostas — mas nos deixar sem perguntas.
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Valteir Teobaldo S. de Assis
Advogado, consultor jurídico, vice-presidente da Comissão de Proteção de Dados e Privacidade da OAB-MT, DPO Serpro/Datashield e Encarregado de Dados do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT).