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Entre estremar e extremar

18/11/2020

Mas quem é meu adversário? Aquele que possui uma opinião diferente, que apenas vê o outro lado da questão, com argumentos diversos aos meus?

Sob à égide dos extremos, faço uma homenagem ao equilíbrio. A polarização separou amigos, deflagrou inimizades, suscitou a ira.

Nesse caminho sombrio, por vezes sem volta, há dois tipos de inimizades concebidas, a que se aflige, debulha, tornando latente sua dor e aquela resignada que sofre sozinha por dentro, internamente e eternamente descontente. Nesta há o silêncio dolorido, fustigado, o qual remove o prazer de estar junto, e naquela existe a mágoa, a ofensa, a mácula de um laço virtuoso notoriamente rompido pela altivez impetuosa da opinião exasperada, tortuosa e contundente...

Essa ira que surge, irracional, injustificada, emanada de convicções opostas, reitera um egoísmo insano, às vezes doentio. Pelo simples prazer de ter "razão" deixo de lado princípios, valores e virtudes. Abraço fortemente a vaidade que, por alguns instantes, vai me fazer sobrepujar o "adversário".

Mas quem é meu adversário? Aquele que possui uma opinião diferente, que apenas vê o outro lado da questão, com argumentos diversos aos meus? Quem será meu opositor? Aquele que, da mesma forma que eu, defende seus ideais, buscando em seu íntimo um melhor resultado, seja para sua vida ou para sua nação?

Faz algum tempo, coletei a seguinte frase (não sei quem é o autor), mas vale muito sua reflexão: “Talvez você nunca tenha percebido que, quando estamos a favor de uma ideia, é maior a probabilidade de permitirmos que vínculos tênues se tornem fato; quando estamos contra uma ideia, consideramos até mesmo fortes evidências como irrelevantes.”

Dolorosamente, essas questões nos fazem viver em uma sociedade de extremos, que parece patologicamente afetada pela defesa insana desse conceito. Assim, convém estremar nossas atitudes e palavras em real confronto aos pensamentos “politicamente” nocivos, à polarização extremista. O estremar refere-se à imposição de limites, demarcar até onde devo chegar e agir na defesa de minhas convicções, pois o mais importante é a preservação de laços de amizade.

Assim entre o estremar e o extremar, fico com a percepção de termos limites, inclusive (e principalmente) em nossas ideologias, pois assim verifica-se o verdadeiro significado da convivência harmoniosa, do estado democrático de direito, como diz a sabedoria popular: “meu direito termina, quando começa o direito do outro”. Todos nós temos direito a uma opinião, o que precisamos é aprender a respeitá-las.




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José Marcelo Perez

Auditor Público Externo josemarcelo@tce.mt.gov.br