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Massacre silencioso

19/03/2018

Esta semana tive a confirmação. Uma querida amiga está doente, bem mal mesmo. Na realidade, ela está partindo [...continue lendo]

Esta semana tive a confirmação. Uma querida amiga está doente, bem mal mesmo. Na realidade, ela está partindo.

Fiquei muito triste. Não tanto pela perspectiva da morte, nosso destino comum. Mas sobretudo pelo sofrimento e limitações físicas e mentais associadas à evolução do mal.

Essa querida amiga não é a primeira pessoa que conheço vitimada por essa desgraça. Antes dela, foram familiares, colegas de trabalho, ex-colegas de faculdade, amigos, vizinhos... Homens e mulheres; jovens e idosos; religiosos e ateus; ninguém escapa às enfermidades decorrentes do uso dessa droga.

Em todo o mundo, de acordo com a OMS, são cinco milhões de mortes anuais, ou mais de uma vez e meia a população de Mato Grosso. No Brasil, segundo o INCA, foram 256 mil óbitos em 2015, mais do que a população de Várzea Grande.

Sim, estou falando das terríveis doenças decorrentes do tabagismo.

Trata-se de um dos maiores problemas de saúde pública em nosso país, mas cujo enfrentamento esbarra em bilionários interesses econômicos e num formidável poder político. A indústria da morte é lucrativa para muitos, que multiplicam fortunas sobre os cadáveres de suas vítimas e o sofrimento causado às suas famílias e amigos. Essa organização, dominada por conglomerados multinacionais que controlam a produção e distribuição de cigarros, não se constrange de remunerar regiamente cientistas, publicitários, artistas e quaisquer outros dispostos a prostituir seu talento, colocando-o a serviço dessa causa maldita.

Há três argumentos principais em defesa da indústria da morte: dois econômicos e um político-filosófico. Todos falaciosos.

Em primeiro lugar, argumenta-se que a produção e venda de cigarros arrecada impostos para o poder público. De fato, estima-se que esse valor alcançou R$ 12,9 bilhões em 2015. Todavia, as despesas médicas decorrentes das doenças provocadas pelo fumo foram de R$ 39,4 bilhões, às quais se deve acrescer R$ 17,5 bilhões de custos indiretos resultantes da perda de produtividade de vários setores econômicos, causada por licenças, aposentadorias precoces por invalidez e mortes prematuras. A esmagadora maioria do déficit de R$ 44 bilhões anuais é suportada pelo SUS e pela Previdência Social.

O segundo argumento é que restrições ao tabaco ameaçam milhares de empregos na agricultura, comércio e serviços. Bobagem. A única atividade prejudicada seria a dos coveiros e agentes funerários. A maior parte desses agricultores pode ser facilmente reorientada para outras culturas, como a de frutas ou alimentos orgânicos, que lhes proporcionaria maiores rendimentos e menos doenças laborais. Basta redirecionar os incentivos fiscais do BNDES de um produto que causa morte para outros que asseguram nutrição e saúde.

O último argumento é o da liberdade individual, do direito de cada um consumir cigarros e encontrar prazer em envenenar-se lentamente. Também é falacioso, por dois motivos principais.

Direitos individuais não são absolutos. Se assim fosse, não haveria leis de trânsito, estabelecendo limites de velocidade e faixas de pedestre. Cerca de 5% das vítimas fatais do tabagismo são os chamados fumantes passivos, pessoas que não fumam, mas inalam as substâncias exaladas por aqueles que o fazem. O fumante, como o motorista embriagado, coloca em risco não apenas a sua vida, mas as de outrem.

Ademais, esse argumento ignora as evidências científicas sobre os processos neurológicos que conduzem à dependência química da nicotina. As agressivas estratégias de marketing concentram-se no público adolescente, cuja personalidade ainda está em formação, para angariar novos consumidores que "provam" o cigarro. Como a cocaína ou heroína, a nicotina libera neurotransmissores alterando o Sistema Nervoso Central, gerando adicção crescente e involuntária.

No rastro de destruição do tabagismo, minha amiga está sendo mais uma vítima. Torço e rezo por ela, mas apelo aos legisladores, executivos e magistrados brasileiros que cumpram o seu dever para impedir a continuidade desse massacre silencioso.




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Luiz Henrique Lima

Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT Graduado em Ciências Econômicas, Especialização em Finanças Corporativas, Mestrado e Doutorado em Planejamento Ambiental, Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia. Perfil