Tenho o hábito de não formar opiniões apressadas ou formular juízos preconcebidos. Desconfio das unanimidades e, diante de uma polêmica, prefiro ouvir mais de um lado antes de chegar a uma conclusão [...leia mais]
Reconheço publicamente que às vezes fico confuso.
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Tenho o hábito de não formar opiniões apressadas ou formular juízos preconcebidos. Desconfio das unanimidades e, diante de uma polêmica, prefiro ouvir mais de um lado antes de chegar a uma conclusão, que sempre será provisória, até que melhores argumentos ou informações se apresentem, eis que me concedo o direito de corrigir meus erros, que, admito, acontecem com incômoda frequência.
Todavia, por vezes, o exercício de entender algumas explicações prestadas por ilustres lideranças e autoridades acaba se convertendo em penoso martírio. É difícil acreditar no que ouço. Não consigo acompanhar raciocínios que, quiçá por extrema sofisticação intelectual de seus formuladores, identifico como completamente descolados da nua e crua realidade material que habito. Será que estão dizendo isso mesmo que consigo decodificar ou será que sou incapaz de decifrar a linguagem dos poderosos? Será que é real esse país sobre o qual peroram, tão diferente e distante do que vejo nas ruas? Será que palavras, conceitos e valores que aprendi em casa e na escola - ética, honestidade, trabalho, lealdade - perderam o significado, revogados por alguma medida provisória ou vítimas de uma mutação semântica ou degeneração ideológica?
O fato é que às vezes fico confuso.
Veja-se o caso da Petrobras.
Ouvindo certas declarações, tenho a impressão de que aqueles que denunciam, combatem e repudiam a corrupção bilionária na principal empresa brasileira são na realidade agentes do mal, a serviço de interesses imperialistas, patrocinados por multinacionais petrolíferas concorrentes e por golpistas antidemocráticos. Por sua vez, os réus confessos, que até ontem eram recebidos nos palácios, são apontados como mentirosos, loucos, traidores, espiões infiltrados etc.
Esperem aí. Quem foi o imperialista que nomeou um, dois, três, sabem-se lá quantos corruptos para a diretoria e gerências da Petrobras? Quais os agentes de multinacionais que aprovaram a compra da refinaria no Texas com prejuízo de 800 milhões de dólares? Identifiquem, por gentileza, os golpistas que elevaram o custo da refinaria de Pernambuco de 2,5 para 18 bilhões de dólares. Quem foi o louco que permitiu que um obscuro elemento de terceiro escalão acumulasse 100 milhões de dólares na Suíça?
Para alguns líderes, que acreditam ter a exclusividade da representação popular, bem como imunidade para fantasiar versões mirabolantes e convenientes de suas trapalhadas, parece não haver limite na defesa apaixonada de seus companheiros. Ontem, no mensalão, os corruptos condenados foram festejados como guerreiros e heróis do povo. Agora, tergiversar sobre a gestão corrupta na Petrobras virou ato de patriotismo.
O Conselho de Administração da Petrobras ainda não chegou a um acordo sobre a contabilidade da propina. O último número anunciado em nota oficial alcançou R$ 88 bilhões, equivalente ao orçamento anual do estado do Rio de Janeiro. É certo que o valor não engloba apenas a corrupção, mas também muita incompetência e desleixo, mas é certo também que essa soma ainda aumentará em razão dos processos que a Petrobrás responde no exterior por fraude a acionistas, e é igualmente certo que, de alguma forma, essa conta será empurrada para todos nós pagarmos.
Na minha família, como em muitos milhares de outras, há uma pessoa de 80 anos que investiu parte de suas economias em ações da Petrobras, confiando na segurança da aplicação e nos dividendos prometidos. Hoje, amargando sua cota do prejuízo bilionário que irá impactar todos os brasileiros, querem convencê-la de que os corruptos que não confessam são patriotas, que a multimilionária propina concedida a partidos políticos foi uma contribuição espontânea de empresários nacionalistas comprometidos com um projeto de desenvolvimento autônomo e inclusivo e que quem divergir disso é entreguista.
Desculpem. Posso estar confuso, mas não engulo.
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Luiz Henrique Lima
Auditor Substituto de Conselheiro do TCE-MT Graduado em Ciências Econômicas, Especialização em Finanças Corporativas, Mestrado e Doutorado em Planejamento Ambiental, Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia. Perfil